LorOooTas

Tudo o que dá na telha eu escrevo (tento fazer isso de forma decente, é claro) aqui, então, não se assuste ao ler, pq dessa cachola sai cada coisa...

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Tudo o que dá na telha eu escrevo (tento fazer isso de forma decente, é claro) aqui, então, não se assuste ao ler, pq dessa cachola sai cada coisa...
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Terra Blog

31.10.08

Experiência - parte II

São 2 h. da manhã:
(Como estávamos em um grupo, o “nós” significa um dos meus amigos, escrevi assim para o texto não ficar confuso)

Nós: Oi, o sr. quer um pouco de leite e pão?
Ele: (sonolento, barbudo, deitado e coberto por um fino lençol azul em cima de alguns pedaços de papelão, carregava uma mochila nas costas como alguém sempre vigilante em suas coisas ou pronto para partir, um marmitex meio aberta ao seu lado) Huuummm, aceito sim.
Silêncio.
Nós: Tudo bem com o sr? - pergunta feita por simples força do hábito
Ele: Ahan
Nós: Qual o seu nome?
Ele: Gilvandro. - disse isso levantando um pouco o rosto, como quem exibe algo que realmente tem, o nome.
Nós: O senhor não tem família?
Silêncio. Se ouve apenas o barulho da sua mastigação. Ele começou a despertar de verdade.
Ele: Tenho sim.
A manteiga do pão suja sua barba por fazer. Um barulho de “glut”, desce o último gole de leite do seu copo..
Nós: E por que o sr. não procura sua família?
Silêncio com mastigação de novo.
Ele: Quer saber mesmo por quê? Eu vou ser bem sincero...
Olha o nada. O pão e o leite acabou.
Nós: O sr. quer mais um pão?
Ele: Huuum... eu aceito.
Um de “nós” se movimenta rapidamente, mais um pão e um copo de leite.
Nós: E então? Por que o sr. não procura sua família?
Ele: Porque eu sou um covarde.

Daí pra frente eu não prestei muita atenção no que meu amigos conversavam, porque fiquei com um ponto de interrogação gigante na cabeça. Como é que uma pessoa admite em voz audível que é um covarde?
Analisei de novo o Sr. Gilvandro.
Perto da sua cama de papelão havia um porrete de meio metro, ele permaneceu com sua mochila nas costas durante toda nossa conversa, como quem está sempre pronto a partir.
Seria ele mesmo um covarde? Será que ele realmente se deixou levar a tal ponto? Me bateu uma tristeza. Vi o quanto eu sou egoísta, às vezes, até por coisas fúteis que se consegue fácil. Mas dignidade? Isso é bem diferente, não há dinheiro que compre e nem dá pra pedir emprestado.
Por fim, nós pedimos o telefone da família dele e dissemos que iríamos ajudá-lo a ver a família de novo, ele tem uma filha da minha idade. Fiquei imaginando o que se passa na cabeça dessa guria, ou não passa... ela ignora.
Por fim, na segunda-feira liguei para a mãe da filha dele e pra minha surpresa ela se mostrou preocupada e antes que eu me apresentasse ela perguntou se havia acontecido alguma coisa com ele. batemos até que um papo amigável, disse o que ele pediu, que queria vê-las antes do final do ano. E também a pedido dele não disse que estava na rua, ele sente vergonha de si mesmo.
Com palavras eu não vou saber descrever o que aprendi, é algo muito individual, não fiquei só sensibilizada, fiquei aflita também, aflita por saber que podemos chegar a tal ponto de desprezo por nós mesmos, pelos outros, pela vida...
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