02.09.08
Depois da montanha, logo ali...
Quando eu era menina fazia coisas de menina....
A montanha, a mureta e eu.
Tenho uma tia que mora no litoral de São Paulo e quando éramos pequenos (os 4 irmãos) passávamos, a cada dois meses, um fim de semana na casa dela, a tia Lila.
E, claro, eu achava este fim de semana muito pouco comparado com os dias em que ficava na escola em período integral. Eu demorei pra aprender o que significava “integral”, então eu traduzia como “minha vida toda na escola”.
Isso se deu até eu completar 8 anos, época em que mudamos para a cidade onde moro até hoje.
Nos finais de semanas chatos, aqueles em que não íamos à praia, dividia o meu tempo entre, “sem querer” quebrar algum pé de planta do jardim da minha mãe, comer balas escondidos antes da hora da comida de verdade, sujar 03 camisetas por dia, me machucar pelo quintal e ficar olhando a “montanha” por cima da mureta do meu portão.
E é sobre este último passa-tempo que falarei.
Eu tinha uma visão privilegiada do meu muro, já que, morando na capital, é difícil de se ver algum mato dando mole por aí, quanto mais um morro inteiro de árvore – alguns anos depois fiquei sabendo que todo aquele morro verde se tratava da reserva do parque do Tietê, mas tudo bem, na época, pra mim, aquilo era a minha Amazônia, eu era feliz por isso.
Eu subia em cima da tampa de cimento do relógio de água, o que me deixava no alto do pequeno muro, ficava olhando aquele bando de mato e imaginava “se eu atravessar aquela montanha chego na casa da tia Lila”. É claro que não poderia arredar o pé do portão, já que morava em uma avenida movimentada, então ficava imaginando um jeito mais prático e menos perigoso de chegar até lá: voando.
E ali, ficava eu, viajante como sempre, imaginando que seria só um impulso a partir da mureta que meu fim de semana ia ser bem mais legal do que comer as balas escondido e ver que minha mãe descobriu, de novo, que os papéis estão embaixo da minha cama ou que meu irmão me dedurou por eu não ter cedido sua chantagem e lhe dado uma bala também, mas, parava pra pensar de novo e, definitivamente meu tão sonhado destino parecia bem perto, porém, era perigoso sair sem alguém grande, seja voando ou a pé, era a única coisa que me impedia, o fato de sair sem alguém. Eu praticamente zerava a distância entre mim e o meu sonho.
Saudade deste poder de zerar o impossível.
Saudade de ver que a distância não era sinônimo de longe, era, simplesmente “logo ali”.
Hoje, pode ser que eu não faça questão de alguém “gente grande” em minha companhia, basta que ser uma boa companhia.
Parando com os pensamentos de menina por aqui, lembranças de muitas coisas surgiram agora. Se um dia souber colocá-las num papel compartilharei aqui.